Esses dias, indo buscar minha amiga no metrô, passei em frente ao colégio em que eu estudava no primário. E, obviamente, comecei a lembrar daquela época. Mas o engraçado é que não me deu saudade do colégio, mas do prédio em que eu morava.
Era um prédio de dez andares e pintura descascada, numa ruazinha do Jabaquara, mais ou menos atrás do hospital Santa Marina, depois de uma ladeira gigante que eu odiava subir pra pegar o ônibus. Minha mãe não dirige, e quando eu era pequena, ela me levava pra todos os lugares de ônibus, mesmo. Hoje, minha avó e minha tia estão morando lá, mas eu não vou há um tempão.
Eu não tinha muitos amigos por lá, pra ser sincera. Eram poucas as crianças da minha idade, e meio estranhas também. Mas tínhamos uma vizinha muito legal com quem minha mãe conversa até hoje, e a neta dela era um amor. Sempre que ela ia ver a avó, ligava pra mim e eu ia lá no apartamento dela (que se não me engano era no sexto andar) brincar com ela. Às vezes, a gente ia pro meu apartamento e brincava de Barbie. Ou então, de casinha e essas coisas de menina, lá na casa da Dona Benê, mesmo.
A propósito, eu morava no nono andar. A coisa que eu mais gostava de fazer era me esticar toda nas pontas dos pés pra conseguir ver a piscina lá embaixo. Tudo bem que usar mesmo a tal da piscina, eu só devo ter usado umas duas ou três vezes, nos oito anos que fiquei por lá. Mas era o máximo ver o pessoal esticando as toalhas de praia no chão e as crianças maiores espirrando água pra fora. Todo mundo ficava pequenininho, parecia que eu poderia segurá-los na palma da mão, se eu quisesse.
Quando fiz oito anos, a gente se mudou aqui pro condomínio do Jardim Marajoara. No começo eu fiquei meio deslumbrada... Tinha um parquinho muito maior do que o do outro prédio, quatro quadras, biblioteca, academia, montes de crianças... era uma cidade! Não tinha piscina, mas eu não me importava muito, na verdade.
Fiz vários amigos, e muitas amizades dessas estão comigo até hoje (e eu me orgulho muito delas). Mas aí eu fui crescendo e comecei a perceber que eu gostava pra caramba da simplicidade lá do outro prédio. Lá não tinha nenhum grupinho de meninas metidas, nem gente riquinha e pomposa passeando com seus poodles emperequetados, nem adolescentes rebeldes que achavam que eram adultos e podiam fazer montes de coisas.
Mas a coisa de que eu mais sentia falta (e confesso que sinto, até hoje) era de abrir o portão do prédio. Era um portão leve, vermelho, mais descascado que a pintura do prédio. Tinha aquelas coisas na parte de cima que me lembravam as lanças do Papa-Capim, e cercava o terreno todo. O meu maior prazer quando eu saía a pé era abrir e fechar o portão. O barulhinho que a lingüeta fazia ao fechar me fazia sentir como quando eu ouço o barulho de água sendo despejada. É uma coisa que não dá pra explicar.
Aqui em casa, eu sempre entrei de carro, com o meu pai, ou de perua escolar (sim, eu ia de perua escolar). Depois que comecei a sair sozinha... putz, não é a mesma coisa. O portão é diferente, é menor mas é mais pesado. Só sei que, sempre que eu visito alguém, eu corro pra abrir e fechar o portão do prédio, só pra ver se eu encontro aquela sensação do portão de casa...
Quem disse que eu sou normal, mesmo?